O dia mal raiou e ela já está cuidando das suas tarefas diárias. Sempre há muito o que fazer. Embora Dona Maria seja generosa na distribuição do milho e do xerém nunca é suficiente para alimentar tantas bocas, é necessário ciscar pelo quintal qualquer coisa que sirva de alimento.
Pretinha é uma galinha em boa idade mas nunca foi cogitada para ir para panela por ser uma excelente botadeira e para se manter assim precisa cuidar da sua saúde, por isso a urgência em se alimentar e alimentar os seus: uma ninhada de pintos que não dá nem pra contar.
Mas ela não se cansa. O novo galo do quintal fareja quando ela está pronta e logo a cobre novamente. Ela, na sua dignidade, não foge nem faz escândalo, deita-se subserviente, aceita seu destino. Afinal é melhor esse do que parar na panela e logo está cheia de ovos novamente.
Contudo, Pretinha possui uma certa liberdade. Logo após as três da tarde, depois de por tudo em ordem, ela se desvencilha dos seus afazeres, pintos e galo ciumento e atravessa uma pequena brecha na cerca passando fortuitamente para o quintal do vizinho. Lá ela encontra um amigo de longas datas, o antigo galo do terreiro de Dona Maria que foi dado ao vizinho por não está mais fazendo o serviço.
Seu destino era virá um caldo generoso, mas parece que seu novo dono se afeiçoou a ele, por também ser um solteirão sem mais importância dar ao sexo do que ao recolhimento e prazer de ler um bom livro.
Ela chega de mansinho cisca o chão e logo que o avista se deita e espera para ser coberta. Força do hábito ou caridade? Ninguém sabe explicar. Só sabemos é que o velho galo não se faz de rogado monta na Pretinha e passa ali bons momentos que muitas vezes nem acaba em coito, mas se dá o prazer de ter uma fêmea novamente sob si.
Minha vó paterna – Dona Maria, é que descobriu essa faceta da Pretinha.
À tarde sentados na varanda sob um calor escaldante sem mais assunto que espantar as moscas ela lançou. – "olha lai vai a Pretinha. Já lavou a roupa, arrumou a casa. Agora ela vai visitar o velho dela. Lá ela faz o café, põe lençol limpo na cama e se deita com ele. Depois volta pra levar os pintos pro galinheiro e nem dá bola se o galo novo se zangar".
Beleza, graça, criatividade sem intenção de agradar, reflexo dos destemperos e caminhos da vida. Minha avó revelou com sutileza, talvez até sem querer, alguns dos segredos da vida: saber driblar um destino esmagador e não se sentir vítima dele.
Há sempre uma fuga, uma saída, um momento de prazer nessa vida cheia de obrigações e deveres. Basta sabermos encontrar a brecha na cerca e termos a coragem de atravessá-la de vez em quando.

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